"O apanhador no campo de
centeio" nos apresenta a visão do mundo de Holden Caulfield, um
adolescente crítico de tudo e todos, e que é um mentiroso compulsivo. Foi
expulso do internato, no qual não gosta das pessoas, e ao invés de esperar o
prazo para voltar para casa, resolve ir para Nova York e ter uma experiência de
liberdade, estando sempre em conflito com sua solidão e ódio pela cultura
adulta.
O livro, escrito por J. D. Salinger é
um dos melhores livros do século XX, estando na lista dos 100 melhores romances
da língua inglesa escritos desde 1923 e na lista dos 100 melhores livros da
língua inglesa do século XX. Foi publicado inicialmente em revistas, e
publicado como livro em 1951, em uma época pós-guerra nos Estados Unidos. A
obra foi um divisor de águas para quem a leu na época, pois o livro apresenta a
visão de um adolescente sobre o mundo. O adolescente só passou a procurar ter
voz a partir dos anos 60, por meio de diversos movimentos. Nos anos 50, a
opinião, as necessidades e a identidade de um "moleque", eram
totalmente desprezíveis pela sociedade da época. Por este contexto, o livro
estava além de sua época.
Holden
foi expulso do internato porque rodou em todas as matérias. Era esperto, porém
preguiçoso. Holden não era burro. No início do livro ele chega a fazer um
trabalho para um colega seu. Após a expulsão, ele recebeu um prazo para seus
pais poderem o buscar. Porém o personagem, por meio de suas intensas críticas a
tudo e todos, resolveu sair mais cedo. Foi para Nova York e ficou em um hotel.
A partir deste momento, Caulfield, deveras bipolar, passava por devaneios de
liberdade e solidão a todo o momento. Mesmo tendo 16 anos, foi a festas
fingindo ser maior de idade. Na maioria das vezes, não conseguiu enganar.
Tentava socializar com mulheres, mas não conseguia. Conversando com qualquer um,
o personagem só conseguia falar de si mesmo e de assuntos que só interessavam a
ele. Queria ser o centro das atenções. Então as pessoas, por causa disto,
desconversavam e se afastavam dele, e isto o deixava revoltado.
"Hipócritas", é o que o personagem pensava de todo mundo. Ele também
tenta sair com uma antiga amiga que é apaixonado, e consegue fazer a menina
chorar. Certo momento, Caulfield chama uma prostituta para seu quarto. Chegando
lá, pede para conversar com ela. E começa com seus devaneios solitários e
prematuros. Mais uma vez, não deu certo, e a prostituta ainda passa a perna nele
e consegue arrancar mais dinheiro. Isso o deixa muito abalado. Mas a principal
relação da trama é dele com sua irmã, Phoebe. A única pessoa que ele ama,
depois de seu irmão falecido Ally. Não parece, mas o livro inteiro se
passa em dois dias da vida do personagem.
O livro
não se destaca por sua história, mas pelo jeito que ela é contada, pelos
pensamentos do narrador. Por meio da visão de Holden Caulfield, o livro
apresenta críticas à sociedade direcionadas às regras sociais, cultura adulta,
religião, entre outros nichos. Holden cita repetidas vezes que não suporta
hipócritas. Até mesmo o cinema. Salinger não gostava de cinema e passou isso
para o personagem que criou. Um comentário que ouvi em um vídeo e achei
bastante instigante foi "O seu Holden é diferente do meu Holden".
Durante a leitura, você pode amá-lo, ou odiá-lo. Ele desperta em qualquer
pessoa a lembrança dos conflitos da adolescência. Vai do seu ponto de vista
sobre isto e da sua empatia com as narrativas de Holden. Durante sua narrativa,
ele sente muita falta de conversar com alguém. Quando entra em contato com as pessoas,
se empolga, querendo se colocar no centro das atenções da conversa e não dando
abertura para o outro indivíduo, afastando-o assim e merecendo seu ódio.
Em
contrapartida, a questão de não ter um grande clímax envolvendo os personagens
pode incomodar algumas pessoas. Mas, na minha opinião isto não tira o brilho da
obra, pois o foco do livro não é este é mostrar as narrativas de Caulfield.
Talvez por isto, ele seja um pouco “cult-hit”, eu diria.
O título
"O apanhador no campo de centeio" é justificado no momento que Holden
conversa com sua irmã Phoebe. Ela pergunta o que ele quer ser quando crescer.
Holden responde que quer ser o responsável para que crianças, que correm em um campo
de centeio, não caiam em um precipício que o circunda. Ele quer ser "O
apanhador no campo de centeio". Este devaneio foi inspirado no trecho de
uma canção, que segundo o personagem é "Se alguém agarra alguém
atravessando o campo de centeio", mas Phoebe o corrige, na verdade é
"Se alguém encontra alguém no campo de centeio". Ele não se importa.
O autor
J. D. Salinger nasceu em 1919. Começou a escrever aos 20 anos. "O
apanhador" foi a sua obra mais relevante, e uma das poucas. Salinger foi
um dos primeiros autores que lutou fortemente por direitos autorais. Se ele
publicava um conto em uma revista, o conto fica na revista até que ele diga o
contrário. Hoje em dia, após seu falecimento (2010, 91 anos), existem contos
seus que estão em bibliotecas e não podem ser retirados e distribuídos. Um fato
interessante é que Salinger foi para a inteligência do exército americano
durante a Segunda Guerra Mundial. Ele começou a escrever "O
apanhador" antes da guerra, e terminou depois. O trauma da guerra o marcou
muito. Após publicar o livro e alguns contos, se isolou do mundo editorial
e da mídia por muitos anos.
Li a 19ª
edição da obra, publicada em 2014, e acho importante destacar que certos
elementos da tradução deixam um pouco a desejar. As expressões estão deveras
desatualizadas, como por exemplo “pomba! ”. Algo curioso é que, apesar da
grandiosidade da obra, é publicado por uma editora desconhecida e é difícil de
ser encontrado. Em lojas na internet, como a Livraria Cultura, por exemplo,
está custando R$80,00.
Este
livro me marcou muito. Quero muito ter a oportunidade de reler, pois com
certeza tirarei novas conclusões e reflexões desta obra tão incrível. Quando
comecei a ler, não sabia que foi publicado nos anos 50. A obra se mantém atual.
Só fui perceber por um elemento bem específico de época. Esses elementos
aparecem discretamente em dois ou três momentos do enredo, mas fora isso, não
dá para perceber que, supostamente, se passa naquela época. Apaixone-se por
Caulfield, ou o odeie. Vai do seu ponto de vista.











