domingo, 13 de março de 2016

O apanhador no campo de centeio: Uma espécie de resenha.

Por Leonardo Azzi.


             "O apanhador no campo de centeio" nos apresenta a visão do mundo de Holden Caulfield, um adolescente crítico de tudo e todos, e que é um mentiroso compulsivo. Foi expulso do internato, no qual não gosta das pessoas, e ao invés de esperar o prazo para voltar para casa, resolve ir para Nova York e ter uma experiência de liberdade, estando sempre em conflito com sua solidão e ódio pela cultura adulta.
            O livro, escrito por J. D. Salinger é um dos melhores livros do século XX, estando na lista dos 100 melhores romances da língua inglesa escritos desde 1923 e na lista dos 100 melhores livros da língua inglesa do século XX. Foi publicado inicialmente em revistas, e publicado como livro em 1951, em uma época pós-guerra nos Estados Unidos. A obra foi um divisor de águas para quem a leu na época, pois o livro apresenta a visão de um adolescente sobre o mundo. O adolescente só passou a procurar ter voz a partir dos anos 60, por meio de diversos movimentos. Nos anos 50, a opinião, as necessidades e a identidade de um "moleque", eram totalmente desprezíveis pela sociedade da época. Por este contexto, o livro estava além de sua época.
Holden foi expulso do internato porque rodou em todas as matérias. Era esperto, porém preguiçoso. Holden não era burro. No início do livro ele chega a fazer um trabalho para um colega seu. Após a expulsão, ele recebeu um prazo para seus pais poderem o buscar. Porém o personagem, por meio de suas intensas críticas a tudo e todos, resolveu sair mais cedo. Foi para Nova York e ficou em um hotel. A partir deste momento, Caulfield, deveras bipolar, passava por devaneios de liberdade e solidão a todo o momento. Mesmo tendo 16 anos, foi a festas fingindo ser maior de idade. Na maioria das vezes, não conseguiu enganar. Tentava socializar com mulheres, mas não conseguia. Conversando com qualquer um, o personagem só conseguia falar de si mesmo e de assuntos que só interessavam a ele. Queria ser o centro das atenções. Então as pessoas, por causa disto, desconversavam e se afastavam dele, e isto o deixava revoltado. "Hipócritas", é o que o personagem pensava de todo mundo. Ele também tenta sair com uma antiga amiga que é apaixonado, e consegue fazer a menina chorar. Certo momento, Caulfield chama uma prostituta para seu quarto. Chegando lá, pede para conversar com ela. E começa com seus devaneios solitários e prematuros. Mais uma vez, não deu certo, e a prostituta ainda passa a perna nele e consegue arrancar mais dinheiro. Isso o deixa muito abalado. Mas a principal relação da trama é dele com sua irmã, Phoebe. A única pessoa que ele ama, depois de seu irmão falecido Ally. Não parece, mas o livro inteiro se passa em dois dias da vida do personagem.
O livro não se destaca por sua história, mas pelo jeito que ela é contada, pelos pensamentos do narrador. Por meio da visão de Holden Caulfield, o livro apresenta críticas à sociedade direcionadas às regras sociais, cultura adulta, religião, entre outros nichos. Holden cita repetidas vezes que não suporta hipócritas. Até mesmo o cinema. Salinger não gostava de cinema e passou isso para o personagem que criou. Um comentário que ouvi em um vídeo e achei bastante instigante foi "O seu Holden é diferente do meu Holden". Durante a leitura, você pode amá-lo, ou odiá-lo. Ele desperta em qualquer pessoa a lembrança dos conflitos da adolescência. Vai do seu ponto de vista sobre isto e da sua empatia com as narrativas de Holden. Durante sua narrativa, ele sente muita falta de conversar com alguém. Quando entra em contato com as pessoas, se empolga, querendo se colocar no centro das atenções da conversa e não dando abertura para o outro indivíduo, afastando-o assim e merecendo seu ódio.

 
Em contrapartida, a questão de não ter um grande clímax envolvendo os personagens pode incomodar algumas pessoas. Mas, na minha opinião isto não tira o brilho da obra, pois o foco do livro não é este é mostrar as narrativas de Caulfield. Talvez por isto, ele seja um pouco “cult-hit”, eu diria.
O título "O apanhador no campo de centeio" é justificado no momento que Holden conversa com sua irmã Phoebe. Ela pergunta o que ele quer ser quando crescer. Holden responde que quer ser o responsável para que crianças, que correm em um campo de centeio, não caiam em um precipício que o circunda. Ele quer ser "O apanhador no campo de centeio". Este devaneio foi inspirado no trecho de uma canção, que segundo o personagem é "Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio", mas Phoebe o corrige, na verdade é "Se alguém encontra alguém no campo de centeio". Ele não se importa.
O autor J. D. Salinger nasceu em 1919. Começou a escrever aos 20 anos. "O apanhador" foi a sua obra mais relevante, e uma das poucas. Salinger foi um dos primeiros autores que lutou fortemente por direitos autorais. Se ele publicava um conto em uma revista, o conto fica na revista até que ele diga o contrário. Hoje em dia, após seu falecimento (2010, 91 anos), existem contos seus que estão em bibliotecas e não podem ser retirados e distribuídos. Um fato interessante é que Salinger foi para a inteligência do exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. Ele começou a escrever "O apanhador" antes da guerra, e terminou depois. O trauma da guerra o marcou muito. Após publicar o livro e alguns contos, se isolou do mundo editorial e da mídia por muitos anos. 
Li a 19ª edição da obra, publicada em 2014, e acho importante destacar que certos elementos da tradução deixam um pouco a desejar. As expressões estão deveras desatualizadas, como por exemplo “pomba! ”. Algo curioso é que, apesar da grandiosidade da obra, é publicado por uma editora desconhecida e é difícil de ser encontrado. Em lojas na internet, como a Livraria Cultura, por exemplo, está custando R$80,00.
Este livro me marcou muito. Quero muito ter a oportunidade de reler, pois com certeza tirarei novas conclusões e reflexões desta obra tão incrível. Quando comecei a ler, não sabia que foi publicado nos anos 50. A obra se mantém atual. Só fui perceber por um elemento bem específico de época. Esses elementos aparecem discretamente em dois ou três momentos do enredo, mas fora isso, não dá para perceber que, supostamente, se passa naquela época. Apaixone-se por Caulfield, ou o odeie. Vai do seu ponto de vista.